sábado, 16 de fevereiro de 2013

Um pouco pedra, um pouco dúvida.


















Assim flutua, sempre perto
sem deixar ser percebida

as pedras sempre me pareceram felizes e fortes
mas eram muito sérias

Eu era pedra, mas era outra coisa
sou meio pedra e meio coisa
e minha outra parte é meio coisa de pedra

Mas as luzes dos postes
entrando abafadas atrás da cortina
elas sabem...
nunca me disse ser dono
mas espiava com cuidado
a porta entreaberta
para zelar teu sono.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Um caso platônico abstrato.





















Era um caso
particular, diferente
por cima do livro, Alice
nas páginas, Alfredo: uma reta tangente

Alice resolveu se auto-descrever
como um vetor normal, perpendicular
e orientou Alfredo
transformando-o em produto
de uma combinação linear

Agora, de certa forma, paralelos
era possível perceber a interconexão:
Alice, de Alfredo, era estudante
Alfredo, de Alice, a própria abstração

Alice[rce]
talvez fosse a base
de um espaço vetorial qualquer
em um universo de retas orientadas
de ponto-a-ponto se estende a certeza

Pois Alfredo e Alice
podiam até ser similares
mas jamais se entenderiam
pois não eram objetos coplanares.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Por baixo.
















Por baixo de tudo o que visto
torno-me como quis
antes de nascer:
meus ossos no lugar
sustentam com pouca destreza
a criatura que tento ser

Meu cabelo emaranhado
e barba mal feita
mal arrumado
e meio besta
sou menos comum

Somos dois emaranhados
representações afobadas
arranjos entrelaçados
de duas euforias engraçadas

Nosso corpo
feito de coisas palpáveis
são desculpas plausíveis
de um par de sopros

Pois, por baixo de tudo o que vestimos
somos só o que se pensa
e é por isso que se inflamam
as estruturas de carne e osso
em um momento lampejante
de duas idéias que se amam.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Celebrare sapienter.





















Quatro correntes de ar
entre os cinco dedos de cada mão
até que sejam rédeas novamente
os versos são sem fim justo

Embaixo de um sabor
sob a forma de chapéu
quase que estou protegido
pelo gosto de chocolate com licor

Porque o universo pode ser fruto:
grande nostalgia
de um tempo que jamais houve
passado aleatório
que hoje nos é presente

Toda fé sem foco é real
pois tal é a fé: sentimento desbotado
são as fotos de sépia
os recados não dados

Até que se levanta a cuja
a idéia cabal
com poeira
ardida em conserva e sal

Para ser arauto do equívoco
e alarme do propósito
os deuses esvaíram-se
e desde o princípio
são um pensamento oco

Para, enfim
apresentar-se o fluxo:
quando toma rumo, o instante oriundo
de volta para o relógio
as horas alimentam-se em revesamento
do único segundo do mundo.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Das desfeitas.




















Agiram embaixo do carpete
um deus de poeira, mas que tudo pode
mas que tudo vê
ergam-se as toneladas de concreto
e os arranjos de ypê

Ainda que seja ao acaso
concederam-me você
quantos saltos a saltar!
quantas casas a erguer!
o que é, se não um arquiteto?
O que sente e o que quer?
de onde veio, se não
do mais alto teto?

Sou humano, apenas
e a desfeita, intrinseca
onde construir todas essas casas?
Não me veja demasiado insano
só porque assustaram-me tuas asas.

domingo, 13 de novembro de 2011

Breve história.

















Os livros no armário
talvez fosse uma Quarta-feira
ou um fim de mês, sem dia
um jogo de letras
uma casa de lego
uma lagartixa sem rabo

Talvez Sábado
porque o chão era quente e de cimento
e espalhava um soldado
carros e cartas
e o resto da tropa
recebeu um aumento

Continuei e a noite escureceu
levantamos desconsertados
o rabo da lagartixa cresceu
plantaram-se os medos

Feitos de perigo
mas a vida que lhe era,
não está nos brinquedos
tampouco comigo.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Paladar paladino.















Porque a ciência é um bardo
e é também um meio riso
capenga de lado a eficiência
afoga-se por completo o juízo

Ao miolo do pão - o céu da boca
mastiga, agora, determinado
o meio do seu planeta
que navegue o gosto de terra
e deixe inebriado
teu paladar recém-nascido
e tua língua adormecida
de um humano mal-criado

Deixa que encerre tua fome
e que germine a tal árvore!
uma ânsia o fará regurgitar
e consumir tudo sem nome

A dor do seu parto reinará
na forma de um mundo bem redondo
levanta logo do presente
e desvenda que o sigilo circunscrito
e a tua verdade tangente

Não é mais que uma semente
e nada de humano lhe caberá
tornarás como miolo entre o dente
para tão somente outra vez germinar.