terça-feira, 1 de outubro de 2013

Tecnologia dominical.



















Toda tecnologia convertida
em uma manhã de Domingo nublada
emaranhados de fios
acompanham a descida
da ladeirinha mal inclinada

Quantas conversas mal entendidas
pouco interpretadas
ou semi-resolvidas
passeiam até madrugar
nos fios introvertidos
de vozes contraídas
que nos amargam o paladar

O fim do barulho desequilibrou-me o passo
numa viagem de livro inocente
dormia o cachorro, o gato e a vovó
já não sei o que caço
na soma dos quatro olhos da gente

Continuei assobiando
totalmente afinado em dó.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A maré.















As paredes caladas notam
meu livro existir sobre a mesa
integrais se entregando
aos sólidos de revolução
em uma orgia
feita a cálculo frio

A vida gira girandônica
porque arrisco esboçar
em uma natureza de despeito
o verbo querer na forma irônica
conjugado no singular
do tempo pretérito perfeito

Corei a ponta da lança com giz
e fiz surfar a número oito
através do veludo fuleiro
calculei a bissetriz
no balanço do caminho afoito

Na caçapa era Janeiro
para minha maré motriz
vislumbrei mil repetições
em um único pedaço inteiro
do jeito que você sempre diz

Contemplei acender mais um sol:
o que mora na ponta do teu cigarro

ainda incandescente
me pescou o anzol
e encheu o vazio do meu jarro.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

O cambaleio.

















Verde.
comprei uma cortina verde
e no meu quarto é sempre tarde
vou de café
vou de torrada
geleia de gosto estranho

Sinto uma grande presença
acordar meu corpo em alarde
da rua que espia desconfiada
minha barba aumentar de tamanho

No quinhentos e seis mora um cara sem crença
que aos Domingos só chega de manhã
durante a semana, ao marchar no rebanho
força um caminho engraçado
que vai da Joaquim Palhares ao Maracanã

Surge louco, inebriado
de casa sempre ausente
corre na veia a grande maçã
e o vinho, por conta da gente

Patina as ruas de peito inflado
e faz de conta que por dentro - do peito - é quente
reza a lenda que se ficar parado
desandam os passos de valente.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Colecionador de saltos.

















Inclinei na beirada do vale
e atirei três olhares avante
corpo amarrado no velame
varejou-me o sopro do viajante

Acertei sem acaso
seu corpo, errante
te levei o ar dos pulmões
bebi tua vida restante

Me expulsou o sopro soprante
despreocupado
sem medo de afundar no mangue
pois o ar que te tomei
emprestado
alimenta as células do meu sangue

Mergulhar no Sol
e surgir no papel, pelo avesso
agora cada salto soprado
inventa um novo começo.

domingo, 21 de julho de 2013

Projeto circense.
























Debandou enfraquecido
o espírito rodopiante
que saltitava, dançarino
nos quase-meus versos entoantes

O violão do Chico ficou mudo
e alguns amigos meus, poetas
dançaram um som preto e branco

Pude conhecer os postes
que sobem as ladeiras do morro
passeei ainda manco
numa íngrime escadinha
uma porta apertadinha

O céu de Julho pintou
Saturno e Marte, em miniaturas
salpicando em multicores
nossos copos quase vazios

E as madrugadas agora
exibem vestidos coloridos
convidam para uma dança, uma noite
embriagados de limão
embebidos no sal
as doses são precisas

Uma lona que desfila
nove palmeiras enfileiradas
contrasta com a multidão
e faz pequena minha dor

Enquanto levanta voo, o circo
desce pelas pernas
o calor de todos os problemas
é quando devolvo ao magma o que é quente
e deixo dissolver as pedras

Que nesse barco eu não vou, não
porque os marujos não permitem
 - ainda que a deriva -
que meu navegar seja em vão

Na sala listrada
a consciência espia
os pensamentos em quarentena
e eu ascendo embriagado
banhado em lucidez

Porque Julho bem me disse:
só se vive uma vez.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Não há nada.




















Chamaram-nos dedos e palmas
e o conjunto, mão
que te correm, que te correm
pois não há nada mais

perdoa a demora
mas tomo teu anseio
te bebo com a mesma sede
enquanto entornas os olhos
sobre  meu corpo em descanço
pois não há nada

com uma certeza certa em si
e justa, no presente agora
aperto e deslizo
a carne e a pele que te envolvem
até que eu imprima no ar
o gestual de minhas mãos

e o que chamam dedos
vasculham com pisadas fortes
no talo das raízes de seus cabelos
e reunem-se meus lábios
para marcar teu pescoço morno
pois não há nada

Teus olhos olham depois da testa, eu vi
eu entorto, você enverga
nossas peles, perdi
descasquei todos os pecados
e agora nos fitam, nus

Te permeio agora
e te debruço
sobre algum anteparo desconhecido
invado e possuo
teu corpo excitado
teu prazer umedecido

Ordeno que levante
e te ofereças a mim
como quem se oferece
à um deus malevolente

Suor, carne
pernas e saliva
unhas, línguas e dente

e teu calor e prazer incitam
em meu corpo inconsciente
tropeço que antecede o mergulho
despejado em tuas costas, sou quente

te desfaço derretendo
contemplo afobado, enlouquecido
mas te preservo consistente
tua careta me arrepia a espinha
teu gemido abafa o ouvido

Te fito de cima
meu peso te castiga
meu prazer é o teu
ao ser invadida

pois não há nada

Somos uma só carne
no alto do teto
já não vejo meu corpo
nossa respiração junta, em desespero
começo a enxergar mesa e ladrilho, turvos
e passa a existir o universo inteiro.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Deixa cachear.


















Foi só
do seu cabelo
que eu me lembrei

Não alisa não, meu bem
deixa o cacho cachear
e assim
encaixar sua mão
nos cachos pendurados
nas ideias
não alisa não, meu bem

Meu bem...
Foi só
do seu jeito
que eu me lembrei

Não desaperta, não
encosta e deixa
sua palma na minha palma
e as linhas vão desenhar, embolar
algum tipo engraçado de nó

Então não adianta não, meu bem
porque nó de palma
não arrebenta
com esse vai-e-vem

Foi só
da sua voz
que eu me lembrei

Não fica muda, não... meu bem
porque problemas
todo mundo tem
mas o nosso nó
é bem dado
e não desata por mal
e nem desfaz por bem

Se não souber pentear
esse ritmo cacheado
me liga qualquer horário
pra encaixar os cachos nas ideias
e eu mostro como cantam

Esses nossos versos cacheados, desenhados
 ... e seja lá o que pensem
 e o que façam ...
de nós,
os nós não desatam.