quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O arrebol.



















Um corte de molho no álcool
causa uma espécie de ardor
o mesmo é o dia: rasgo no tempo
sinto banhar e lavar
quando assisto o sol se pôr

Enquanto corta o dia
sabe o céu que o sol é hemofílico
de olhos cerrados assisto a hemorragia
inundar o litoral
dessa pequena cúpula de acrílico

Entra ela sorrateira
e traz maré com ventania
enquanto o céu empurra abaixo o sol
a lua ajuda a afogar o dia

Sabe-se que sou etílico
quando me queima o quente arrebol
evaporo à noite em verborragia
ao notar o movimento acíclico
nas ondas do meu lençol.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O arco.














Arpoador em tarde de Sábado
te reverbera um nocaute irreal
soco de punho pesado
assiste a onda me dichavar
espalhado no vento litoral

A pôr a dor [de lado] em tarde de Sábado
te regenera um Gestalt principal
pouco de um rascunho inventado
insiste a brisa incendiar
esmiuçado momento universal

Arqueador de tempo primordial
entorta o fim no começo e meio
me inebria a tua tatuagem tribal
desenho desmanche gravado
que descansa do pescoço ao seio

Laqueador orgânico espiritual
naquela tarde fui eleito
me levita a coluna vertebral
porque ligou minhas moléculas de outro jeito

Lar que eu vou aleatório e proposital
das probabilidades que arranco
me golpeiam palavras de porte feudal
na página que carrego em branco.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Tecnologia dominical.



















Toda tecnologia convertida
em uma manhã de Domingo nublada
emaranhados de fios
acompanham a descida
da ladeirinha mal inclinada

Quantas conversas mal entendidas
pouco interpretadas
ou semi-resolvidas
passeiam até madrugar
nos fios introvertidos
de vozes contraídas
que nos amargam o paladar

O fim do barulho desequilibrou-me o passo
numa viagem de livro inocente
dormia o cachorro, o gato e a vovó
já não sei o que caço
na soma dos quatro olhos da gente

Continuei assobiando
totalmente afinado em dó.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A maré.















As paredes caladas notam
meu livro existir sobre a mesa
integrais se entregando
aos sólidos de revolução
em uma orgia
feita a cálculo frio

A vida gira girandônica
porque arrisco esboçar
em uma natureza de despeito
o verbo querer na forma irônica
conjugado no singular
do tempo pretérito perfeito

Corei a ponta da lança com giz
e fiz surfar a número oito
através do veludo fuleiro
calculei a bissetriz
no balanço do caminho afoito

Na caçapa era Janeiro
para minha maré motriz
vislumbrei mil repetições
em um único pedaço inteiro
do jeito que você sempre diz

Contemplei acender mais um sol:
o que mora na ponta do teu cigarro

ainda incandescente
me pescou o anzol
e encheu o vazio do meu jarro.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

O cambaleio.

















Verde.
comprei uma cortina verde
e no meu quarto é sempre tarde
vou de café
vou de torrada
geleia de gosto estranho

Sinto uma grande presença
acordar meu corpo em alarde
da rua que espia desconfiada
minha barba aumentar de tamanho

No quinhentos e seis mora um cara sem crença
que aos Domingos só chega de manhã
durante a semana, ao marchar no rebanho
força um caminho engraçado
que vai da Joaquim Palhares ao Maracanã

Surge louco, inebriado
de casa sempre ausente
corre na veia a grande maçã
e o vinho, por conta da gente

Patina as ruas de peito inflado
e faz de conta que por dentro - do peito - é quente
reza a lenda que se ficar parado
desandam os passos de valente.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Colecionador de saltos.

















Inclinei na beirada do vale
e atirei três olhares avante
corpo amarrado no velame
varejou-me o sopro do viajante

Acertei sem acaso
seu corpo, errante
te levei o ar dos pulmões
bebi tua vida restante

Me expulsou o sopro soprante
despreocupado
sem medo de afundar no mangue
pois o ar que te tomei
emprestado
alimenta as células do meu sangue

Mergulhar no Sol
e surgir no papel, pelo avesso
agora cada salto soprado
inventa um novo começo.

domingo, 21 de julho de 2013

Projeto circense.
























Debandou enfraquecido
o espírito rodopiante
que saltitava, dançarino
nos quase-meus versos entoantes

O violão do Chico ficou mudo
e alguns amigos meus, poetas
dançaram um som preto e branco

Pude conhecer os postes
que sobem as ladeiras do morro
passeei ainda manco
numa íngrime escadinha
uma porta apertadinha

O céu de Julho pintou
Saturno e Marte, em miniaturas
salpicando em multicores
nossos copos quase vazios

E as madrugadas agora
exibem vestidos coloridos
convidam para uma dança, uma noite
embriagados de limão
embebidos no sal
as doses são precisas

Uma lona que desfila
nove palmeiras enfileiradas
contrasta com a multidão
e faz pequena minha dor

Enquanto levanta voo, o circo
desce pelas pernas
o calor de todos os problemas
é quando devolvo ao magma o que é quente
e deixo dissolver as pedras

Que nesse barco eu não vou, não
porque os marujos não permitem
 - ainda que a deriva -
que meu navegar seja em vão

Na sala listrada
a consciência espia
os pensamentos em quarentena
e eu ascendo embriagado
banhado em lucidez

Porque Julho bem me disse:
só se vive uma vez.