segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Um caso platônico abstrato.





















Era um caso
particular, diferente
por cima do livro, Alice
nas páginas, Alfredo: uma reta tangente

Alice resolveu se auto-descrever
como um vetor normal, perpendicular
e orientou Alfredo
transformando-o em produto
de uma combinação linear

Agora, de certa forma, paralelos
era possível perceber a interconexão:
Alice, de Alfredo, era estudante
Alfredo, de Alice, a própria abstração

Alice[rce]
talvez fosse a base
de um espaço vetorial qualquer
em um universo de retas orientadas
de ponto-a-ponto se estende a certeza

Pois Alfredo e Alice
podiam até ser similares
mas jamais se entenderiam
pois não eram objetos coplanares.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Por baixo.
















Por baixo de tudo o que visto
torno-me como quis
antes de nascer:
meus ossos no lugar
sustentam com pouca destreza
a criatura que tento ser

Meu cabelo emaranhado
e barba mal feita
mal arrumado
e meio besta
sou menos comum

Somos dois emaranhados
representações afobadas
arranjos entrelaçados
de duas euforias engraçadas

Nosso corpo
feito de coisas palpáveis
são desculpas plausíveis
de um par de sopros

Pois, por baixo de tudo o que vestimos
somos só o que se pensa
e é por isso que se inflamam
as estruturas de carne e osso
em um momento lampejante
de duas idéias que se amam.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Celebrare sapienter.





















Quatro correntes de ar
entre os cinco dedos de cada mão
até que sejam rédeas novamente
os versos são sem fim justo

Embaixo de um sabor
sob a forma de chapéu
quase que estou protegido
pelo gosto de chocolate com licor

Porque o universo pode ser fruto:
grande nostalgia
de um tempo que jamais houve
passado aleatório
que hoje nos é presente

Toda fé sem foco é real
pois tal é a fé: sentimento desbotado
são as fotos de sépia
os recados não dados

Até que se levanta a cuja
a idéia cabal
com poeira
ardida em conserva e sal

Para ser arauto do equívoco
e alarme do propósito
os deuses esvaíram-se
e desde o princípio
são um pensamento oco

Para, enfim
apresentar-se o fluxo:
quando toma rumo, o instante oriundo
de volta para o relógio
as horas alimentam-se em revesamento
do único segundo do mundo.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Das desfeitas.




















Agiram embaixo do carpete
um deus de poeira, mas que tudo pode
mas que tudo vê
ergam-se as toneladas de concreto
e os arranjos de ypê

Ainda que seja ao acaso
concederam-me você
quantos saltos a saltar!
quantas casas a erguer!
o que é, se não um arquiteto?
O que sente e o que quer?
de onde veio, se não
do mais alto teto?

Sou humano, apenas
e a desfeita, intrinseca
onde construir todas essas casas?
Não me veja demasiado insano
só porque assustaram-me tuas asas.

domingo, 13 de novembro de 2011

Breve história.

















Os livros no armário
talvez fosse uma Quarta-feira
ou um fim de mês, sem dia
um jogo de letras
uma casa de lego
uma lagartixa sem rabo

Talvez Sábado
porque o chão era quente e de cimento
e espalhava um soldado
carros e cartas
e o resto da tropa
recebeu um aumento

Continuei e a noite escureceu
levantamos desconsertados
o rabo da lagartixa cresceu
plantaram-se os medos

Feitos de perigo
mas a vida que lhe era,
não está nos brinquedos
tampouco comigo.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Paladar paladino.















Porque a ciência é um bardo
e é também um meio riso
capenga de lado a eficiência
afoga-se por completo o juízo

Ao miolo do pão - o céu da boca
mastiga, agora, determinado
o meio do seu planeta
que navegue o gosto de terra
e deixe inebriado
teu paladar recém-nascido
e tua língua adormecida
de um humano mal-criado

Deixa que encerre tua fome
e que germine a tal árvore!
uma ânsia o fará regurgitar
e consumir tudo sem nome

A dor do seu parto reinará
na forma de um mundo bem redondo
levanta logo do presente
e desvenda que o sigilo circunscrito
e a tua verdade tangente

Não é mais que uma semente
e nada de humano lhe caberá
tornarás como miolo entre o dente
para tão somente outra vez germinar.

domingo, 24 de julho de 2011

A primeira lucidez: quando baila o grão, desperta o louco.

















Em um deserto moravam dois sultões: Jamir e Jeishou, cada um dono de uma das duas únicas fontes de água potável de todo o local desértico. Jamir morava no começo do deserto, e Jeishou, já no fim, quase na floresta. Boatos corriam, dizendo que a água da fonte no fim do deserto é a melhor água dentre as duas, e que a primeira fonte, logo no começo, possui boa água, mas que vale caminhar mais alguns dias e noites para mergulhar no poço das águas mais distantes. Angustiado e revolto em suposições, Jamir, dono da primeira fonte, dirigiu-se até o palácio do segundo sultão, colheu com uma taça por ele mesmo trazida, a água jazida no poço, e depois de um gole diminuto, disse em voz alta:

 - É a distância da fonte que qualifica a tua água! Seu produto é primordial para a vida, e atua com ótima mira quando a sede torna-se angústia. Vendes tua água como o êxtase desse deserto, mas não passa de um alvejante! Coloca nossas fontes lado a lado e assiste evaporar seu produto!

Sem muito pestanejar, Jeishou retrucou:

 - De fato é longa a travessia para quem vem do leste, rumo às casas nos baobás. Mas se retornam da floresta, esses nômades e peregrinos, a última fonte passa a ser a sua, não mais a minha. Então cuida pra tua fonte não secar, pois os sem caminho voltarão sedentos!

 - Mas o que tanto buscam nessa floresta, óh, deuses?! - indagou Jamir.

 Então Jeishou disse:

 - Dizem que no meio da floresta, depois da queda d'água e da correnteza do rio, tem uma clareira, e nessa clareira tem uma adega, e nessa adega rezam servir o melhor vinho da região!

 - Mas nem é lá essas coisas o vinho - argumentou Jamir, meneando a cabeça - ja provei do vinho que falas, e minha água parece ter mais gosto!

Jeishou prosseguiu:

 - Não sei ao certo, mas dizem que a uva utilizada não é daqui, mas de muito longe,conservada de forma única e especial. Mas ainda assim, tenho minha própria opinião: já atravessam o deserto embriagados, os que buscam a adega! Depois de tanto mexer nas nuvens, dói-lhes a cabeça em demasia ter que pisar em terra firme. Por isso não cessa a travessia por esse deserto, Jamir! A embriaguez é a última escolha dos sem caminho! Por isso não se encerra o ir-e-vir desses lunáticos! Retornam e retornam, e só fazem retornar.

 - Sabe o que me alivia, Jeishou? - indagou Jamir
 - É que todo esse deserto escorre no vão de minha ampulheta!