sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

A porta do estaleiro.



















Enquanto o sol esquenta
e o concreto inflama
descem importantes, os homens
a escada da estação Uruguaiana

atrás do blusão de linho
tilinta a camuflagem
dissipa o ar afobado
no andar apertadinho

enquanto minha mochila vazia
pesa quatrocentos e vinte navios
arrasto a âncora pela mista paisagem
e danço um tango ao som de sirene e buzina

porque são muitos universos:
no bar bebem,
comem e riem, espalhafatosos
outros caçam a janta com pelos
no boeiro da esquina

sem cerimônia
o ônibus parte
as pessoas falam - mas só falam
a vida parece prosseguir

quando todos estão indo
ainda que sem saber
nos mantêm vivos e em alarme, o belisco
de acordar sem doer

até que içam as velas
quatro centenas de navios (mais rápidos que a ideia)

no vão das pupilas dilatadas
unem-se todas as metades
me encaram fixos e sérios, os marujos
com seus olhares de fulminar verdades.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Apolo treze.

















Me queima o omoplata
e some certo na decolagem
na correnteza vai-se a cabeça
boquiabre-se maxilar primata
no início da viagem

teu violão de quarenta anos
venero como paisagem
me toca as cordas vocais
sem querer canto rouco
num timbre selvagem: urros vogais

na estratosfera assisto louco
meu corpo virar imagem
já desprendidos de mim
pedaços aleatórios
de toda aparelhagem

sou corda sem timbre
paralisada assim
prolongo ao redor da Terra
porque me vibra o mundo
no meu filme-ideia sem fim

protótipo sem destino
mal vou lembrar
do meu corpo todo dormente
só volta à Terra o módulo lunar.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Quiosquicina terápica.

















A lua cuspida
escorre a noite
tipo saliva

nossa ignorância
acerca dos oceanos
nos esconde o ocorrido:
o mar foi mijado

por um bêbado antigo
após beber sete bares
acometido
por incontrolável desejo
de criar vidas submarinas

agora trabalha no quiosque
do posto seis
e vende camarão
cerveja, picolé
e outros aperitivos

a chuva que incide na superfície
é alguém imitando lá de cima
mas ainda submerso não serei peixe
pra mim
qualquer quiosque
é oficina.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O bonde.
















Minhas atuais vontades
marcham fora da maquinaria
com rodas de aro amassado: são marginais
não me prometem nenhuma rima
esquema ou estética

Minhas equações derretem
e descem o topo de qualquer euforia
no bar com cadeiras altas
e com o letreiro luminoso da cervejaria

Não permitem sequer
pincelar um registro
vontade é essa: um borrão
sou em tudo aquilo que existo

Minha dormência trepidou
para eu viver o enquanto
quem estava dentro acordou
esparramado - como chuva - na telha de amianto

Deixo que me acertem
as sucessivas avalanches

Minha vontade é como o bonde:
anda nas ruas até entortar
um tipo de bêbado errante
veio não sei de onde
parece nunca chegar

Entardeceu teu gesto
como uma noite capilar
deita nos ombros e esbarra no queixo
embrulha em bem-estar

Me lança ao alto
deferindo um golpe a distância
bamboleia minha vontade atrasada
no beco da consonância.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O arrebol.



















Um corte de molho no álcool
causa uma espécie de ardor
o mesmo é o dia: rasgo no tempo
sinto banhar e lavar
quando assisto o sol se pôr

Enquanto corta o dia
sabe o céu que o sol é hemofílico
de olhos cerrados assisto a hemorragia
inundar o litoral
dessa pequena cúpula de acrílico

Entra ela sorrateira
e traz maré com ventania
enquanto o céu empurra abaixo o sol
a lua ajuda a afogar o dia

Sabe-se que sou etílico
quando me queima o quente arrebol
evaporo à noite em verborragia
ao notar o movimento acíclico
nas ondas do meu lençol.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O arco.














Arpoador em tarde de Sábado
te reverbera um nocaute irreal
soco de punho pesado
assiste a onda me dichavar
espalhado no vento litoral

A pôr a dor [de lado] em tarde de Sábado
te regenera um Gestalt principal
pouco de um rascunho inventado
insiste a brisa incendiar
esmiuçado momento universal

Arqueador de tempo primordial
entorta o fim no começo e meio
me inebria a tua tatuagem tribal
desenho desmanche gravado
que descansa do pescoço ao seio

Laqueador orgânico espiritual
naquela tarde fui eleito
me levita a coluna vertebral
porque ligou minhas moléculas de outro jeito

Lar que eu vou aleatório e proposital
das probabilidades que arranco
me golpeiam palavras de porte feudal
na página que carrego em branco.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Tecnologia dominical.



















Toda tecnologia convertida
em uma manhã de Domingo nublada
emaranhados de fios
acompanham a descida
da ladeirinha mal inclinada

Quantas conversas mal entendidas
pouco interpretadas
ou semi-resolvidas
passeiam até madrugar
nos fios introvertidos
de vozes contraídas
que nos amargam o paladar

O fim do barulho desequilibrou-me o passo
numa viagem de livro inocente
dormia o cachorro, o gato e a vovó
já não sei o que caço
na soma dos quatro olhos da gente

Continuei assobiando
totalmente afinado em dó.