sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O mergulho.




















É na curva que me perco
nos caminhos arrepiados
nos lábios sedentos
no mergulho entre os seios
seja com os olhos
seja com as mãos, nos seios alheios

Um mergulho que - a princípio - sem volta
me renova, me alimenta
não quero a superfície, quero a revolta
quero aprender a respirar aqui
bem no fundo
é loucura, é o mundo

É a pele, a cor, a fragância
sem erro, dor, ou arrogância
é um mergulho numa reta
o fundo é um palmo meu
e lá eu moro
fecho os olhos, já que é breu
e esqueço toda ciência
meu raciocínio foi banido
ele grita fora de minha essência

E só ouço murmúrios
que nem fazem sentido
sou um pedaço de vontades
desejos e perigos
me movimento de acordo com as verdades
olho para o alto
e a superfície é um sonho, totalmente abstrato

Busco com mil braços uma resposta
e as curvas me dobram, redobram, desmontam
minha intenção está exposta
busco com dezenas de suspiros
busco algo que esteja escondido
sou um lamento mínimo
no meio de um vasto prazer
sou o que, diante a isso, só pude querer

E o corpo que antes não era meu
me traga, para que eu o possa ser
não é onda, não me cansa
e ao me ter
torna-se comigo uma unidade
sou uma lâmpada acesa
no meio de uma cidade

Posso esvair-me aqui
desunindo-me do um, de mim mesmo
mas a magnetude desse brilho
ecoa como um gemido, para sempre propagado
pelo momento em que pude renascer
procurando, louco, algum apoio ao lado
sem saber que nesse mergulho
eu seria afogado.

domingo, 16 de agosto de 2009

A direção.


















Os olhos estão fechados, entretanto, a consciência já retornou ao corpo. E assim inicia-se
mais um dia. Antes mesmo de encostar seus pés no chão, Orfeu começa a incessante lista de
perguntas e conjecturas, idéias,possibilidades sobre o que o cerca. Sou diminuto e perecível, sou breve - pensava ele. Somos breves. Tudo está em movimento. Eu, meus átomos, minhas moléculas, minhas células, a Terra, o Sol, os planetas, as estrelas, a galáxia, tudo. Será então, que o universo também movimenta-se? Como se estivesse contido em uma cúpula de inimagináveis anos-luz de tamanho. Hoje, não tenho como saber - pensava consigo.
O café cai na caneca, e o barulho que surge, propaga por todo o ambiente. E todo o ambiente prova do café. E Orfeu continua suas conjecturas... Tudo é uma questão de probabilidades instantâneas - imaginou. Não existe destino, as coisas não estão determinadas. O que ocorre, é que a há uma imensidão de probabilidades. Dessa forma, existe uma consequência para qualquer
ato, mas isso não significa que eu fiz determinada coisa, pelo simples fato de que era para ser feita por mim. Isso, para mim, é uma parcela de ignorância, pois estaremos ignorando - se assim pensarmos - que podíamos escolher por não fazer determinada coisa. Então, há uma possibilidade para cada evento, e há uma infinidade de eventos. Coisas que a primeira vista pareçam insignificantes na participação da sequência de fatos no dia, são na verdade, importantíssimas - ele conjecturou. Se por acaso eu resolvesse não tomar esse café, não estaria pensando nessas coisas. Se eu não tomasse o café, poderia sair mais cedo, e assistir ao acidente ocorrido na avenida principal. Uma infinidade de possibilidades constroi uma textura maior, a qual chamamos muitas vezes, de destino.
Existem também, inúmeros paralelos. Um deles é o que costumo chamar de "conservação de eventos", com uma idéia igual à conservação de energia. Podemos sempre aprender com alguma
coisa, mesmo sendo um acidente, um incidente, uma separação, seja o que for, será um evento, e podemos utiliza-lo de alguma forma para seguir um determinado caminho. Isso faz parte da imensa quantidade de possibilidades. Não se trata de Deus jogar dados, mas sim, que não importa qual resultado prevalecerá, pois sempre haverá uma consequência, pois tudo é uma possibilidade. Nossa inteligência, designação e capacidade de raciocínio, pode ajudar a previnir coisas indesejaveis, mas ao mesmo tempo, também faz com que ocorram coisas de um alto nível de estupidez.
Orfeu, agora, preparava-se para um banho, mas como sempre, sem deixar de pensar nessas
coisas. O banheiro da casa possui uma vidraça relativamente grande, que apontava para o céu, e
deitado ali, dentro da banheira, olhava a vidraça, que hoje, estava totalmente azul. E de repente, uma mosca resolveu atrapalhar seus métodos de entendimento, mas ao invés de sentir-se afetado, buscou outro modo, outra possibilidade, e resolveu pensar na relatividade das coisas,
mais precisamente, da vida. Essa mosca dura uma semana - começou ele. Mas quem disse que ela sabe disso? A vida dela pode ser tão confortavel em questão de duração, assim como a nossa é para nós mesmos. Quem alega que ela vive por uma semana, somos nós e nossas medições,
categorizações, designações. O que podemos perceber, de fato, é que ela vive por um período de
momentos menor do que nós. A vida da mosca, para nós, é um sopro. Mas se percebermos de uma forma mais ampla, veremos que para o todo, também somos moscas. Somos um sopro no meio das estrelas. Contudo, somos grandes na importância que temos em relação ao universo. Da mesma forma que nossas células(da pele, por exemplo)morrem e nascem, agora, e depois e agora de novo, mantendo a aparência e textura do todo, que parece ser eterno, se comparado com as
células. Somos assim como essas células, breves, se olharmos o todo que nos cerca. Da mesma
forma que os minutos constroem a hora, e os dias constroem o ano, uma miríade de eventos
breves, constroem a eternidade do todo. É como uma plataforma gigantesca sustentada por uma
infinidade de pilastras, que aparecem e desaparecem, incessantemente, nunca estando em excesso ou falta, sem deixar que a plataforma caia.
Orfeu começa a se enxugar e não pára de cogitar. Existem vários lados para todas as coisas.
Uma moeda sem o lado cara, ou sem o coroa, não possui valor comercial. A moeda é formada por
dois lados, logo, de certa forma, os dois lados constituem o valor total da moeda. Assim é com
a alma e corpo. Quando um desses encontra-se afetado, inevitavelmente afetará o outro. Uma
depressão, que é algo emocional, sentimental, da alma, pode causar danos ao corpo. Podemos
deixar de comer, perder peso, ficar vulnerável à coisas que são banais quando se tem o
organismo saudável. Ou seja, o equilíbrio está na nutrição adequada de todos os lados que
existem. Ainda, então, nem o equilíbrio é absoluto, ele é o resultado de porções igualadas, de coisas opostas, e para alcançar o equilíbrio é necessário que, antes, esteja desequilibrado.
Orfeu vai até a cozinha, enche mais uma caneca com café, e dirige-se ao quarto. Abre seu
armário, e contempla-se no espelho, e continua suas questões e propósitos... Se tudo e todos
estamos conectados, tudo é possível. Se depende de nós, uma possibilidade ser remota, é
característica maior de nossas próprias mentes, de nossa economia, de nossa civilização, etc.
Não vou para o Japão, não porque não quero, mas primeiramente, porque não tenho condições. Mas a minha ida ao Japão, nunca deixará de ser uma possibilidade.
Outra coisa que não é menos ou mais importante - lembrou, Orfeu. Vivemos em uma vida que não é ela realmente. O que vivemos é o que vemos, e o que vemos é uma máscara tapando a verdadeira face da realidade. Essa máscara é formada por palavras, expressões, entendimentos errados, limitações, tradições, etc. Sei que é uma máscara, só não sei o que há por trás dela, para que eu saiba é necessário transcender as palavras, limitações, designações, nomes, etc. Quando
percebermos que esses limites não são, de fato, coisas concretas e absolutas, verdadeiras, mas
sim, que essas coisas apontam na direção do que existe realmente, atingimos um nível de
existência no qual vivemos a realidade como ela é. Existem vários caminhos para alcançar esse
entendimento. Seja com uma religião, seja com uma doutrina, basta que seja algo do bem. E o
que se encontra nesse nível de realidade? Apenas a realidade como ela é? Penso que não -
balbulciou, Orfeu. Acho que além de ver a vida como ela realmente é, conseguiremos enxergar o
Deus que tanto procuramos. Deus não está lá ou cá, apenas. Só atingiremos esse estágio de
entendimento, quando abraçarmos o todo. Existe muito o que pensar, muito o que falar, muito o
que cogitar, porém, o que sinto é maior, e por parte, mais valioso que as palavras que posso
mencionar. O que sinto me explica com todas as palavras aquilo que busco. Só quero deixar
claro para mim mesmo - constatou - que o amor é um dos nomes que aponta para o todo. Se querer alguém ou algo só para si, é amor, tenho receio de que exista algo superior e mais abrangente que isso. Não sei se é uma compaixão infinita, ou uma solidariedade surreal. Só sei que amor mesmo, é conseguir enxergar o todo nas partes que o formam. Busco por isso. Pois essa é minha religião: o todo.
Orfeu, então, veste-se e sai de casa.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Breve conforto.




















Concretizei-me aqui
aprisionado neste ser
minhas mãos, meus olhos
e o amanhecer

Há alguém assistindo a alvorada
um ser minúsculo
levanta, se alimenta
e perece antes do crepúsculo

Há alguém imaginando o nada
que cria o tudo
se espanta, se contenta
e enxerga ser miúdo

Por fora não há certeza
meu teto pode ser, quem sabe
um chão
meu medo pode ser um alibi
em vão.

Onde moro
ando nesse asfalto
as condições, ignoro
por saber estar no alto
junto às estrelas, encostado na noite eterna
ela me envolve e me conforta
suspenso e deitado
em cima e embaixo
do espaço estrelado.