sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A maré.















As paredes caladas notam
meu livro existir sobre a mesa
integrais se entregando
aos sólidos de revolução
em uma orgia
feita a cálculo frio

A vida gira girandônica
porque arrisco esboçar
em uma natureza de despeito
o verbo querer na forma irônica
conjugado no singular
do tempo pretérito perfeito

Corei a ponta da lança com giz
e fiz surfar a número oito
através do veludo fuleiro
calculei a bissetriz
no balanço do caminho afoito

Na caçapa era Janeiro
para minha maré motriz
vislumbrei mil repetições
em um único pedaço inteiro
do jeito que você sempre diz

Contemplei acender mais um sol:
o que mora na ponta do teu cigarro

ainda incandescente
me pescou o anzol
e encheu o vazio do meu jarro.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

O cambaleio.

















Verde.
comprei uma cortina verde
e no meu quarto é sempre tarde
vou de café
vou de torrada
geleia de gosto estranho

Sinto uma grande presença
acordar meu corpo em alarde
da rua que espia desconfiada
minha barba aumentar de tamanho

No quinhentos e seis mora um cara sem crença
que aos Domingos só chega de manhã
durante a semana, ao marchar no rebanho
força um caminho engraçado
que vai da Joaquim Palhares ao Maracanã

Surge louco, inebriado
de casa sempre ausente
corre na veia a grande maçã
e o vinho, por conta da gente

Patina as ruas de peito inflado
e faz de conta que por dentro - do peito - é quente
reza a lenda que se ficar parado
desandam os passos de valente.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Colecionador de saltos.

















Inclinei na beirada do vale
e atirei três olhares avante
corpo amarrado no velame
varejou-me o sopro do viajante

Acertei sem acaso
seu corpo, errante
te levei o ar dos pulmões
bebi tua vida restante

Me expulsou o sopro soprante
despreocupado
sem medo de afundar no mangue
pois o ar que te tomei
emprestado
alimenta as células do meu sangue

Mergulhar no Sol
e surgir no papel, pelo avesso
agora cada salto soprado
inventa um novo começo.