sábado, 29 de maio de 2010

O Metalaço.















E o que me acorda?
É o café?
O dia quente? O dia nublado?
A vida me acorda.

Me acorda para não esquecer
quando só o relógio mostra o que passa
o tempo logo se retira
e o teto esparrama nos meus olhos
me fazendo adormecer

Vezes me esqueço de acordar
e saio andando sonhando
todo dia acordo no meio do dia
de terno, gravata e maleta
sou o advogado do tempo

Vezes também lembro
de não esquecer
logo faz-se a meta-lembrança
como tudo o que há deve ser

O meta-tempo
o meta-olho
a meta-mente
a meta-vida
a meta-música

E o estalo insistente estala
existir é inevitável
tocam a música para acabar
enquanto meus dedos loucos
tocam a música para enquanto tocar

E assim é o "meta"
entrelaçado em si mesmo
sem medições, sem ponteiros

E logo cedo
a vida é para além do tempo:
mal começamos a tocar
e já estamos presos no refrão.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A Lua, que Lua.















E o mundo não cansa de ser redundante
a chuva molha no molhado dela mesma
e o bêbado alucinado errante
festeja sua festa com cerveja

Nem a rua
ou mesmo a calçada
percebe a Lua
que na Ana, nasceu incrustada

Todo dia nova
ou metade feliz
tem por inteiro a graça
como o próprio nome diz

Reclamam da distância
mas quando enguiçam na estrada
é a Lua distante
que se mostra ilustrada

Separar, nem se tenta
A Lua com a Ana, está conectada
A Ana, no céu dos errantes
e a Lua, de brilho, lotada

E ainda que eu tente
desunir com força
esse nó arcaico
é inútil, pois
Luana tem coração parte Hebraico.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

O anônimo.

















Devido aos direitos daquele que depõe, não será dito nome próprio algum que faça menção, direta ou indireta, ao mesmo. Dessa forma, chama-lo-ei de anônimo.
Anônimo despertou seu interesse pela ciência aos poucos segundos de idade, quando nem mesmo sabia quem era ele próprio. Anônimo, por falta de força maior, resolveu ser forte em si só. Anônimo, por falta de se expressar, espalhou-se anonimamente, dando anonimatos animados por todos os lugares. Anônimo, então, baseou-se na satisfação de uma unidade maior para a concretização de sua felicidade. E ninguém jamais viu, ouviu, ou sequer encostou em anônimo. Anônimo era irreconhecivel, não importando a cor de sua blusa, de suas calças. Anônimo era inevitavel e indiscutivelmente, invisivel.
E a todo momento, anônimo procura anonimar-se o máximo possível, mantendo assim, sua satisfação, como sendo a de todos juntos, em uma só satisfação. Anônimo alcançara uma solidariedade tão grande quanto sua carência. Anônimo era triste por só ter o dom da criação. Pensava ser um gênio, mas preferia ser modesto e passar essa genialidade adiante. Anônimo era brilhante! Anônimo, anonimamente, felicitava o interior de suas criações, e quando sentiam-se felizes, agradecendo sem rumos, anônimo ficava em silêncio e, modestamente falava: jamais fiz algo. Felicidade é um merecimento nato de todo vivente. Sou feliz por viverem, enquanto vocês vivem por serem felizes. Não desejo que me enxerguem, pois eu já enxergo vocês. É por isso que vivo.
Era visível o vazio interior de anônimo. Vasto, deserto, amplo. E então conclui-se que o nada, é o tudo em potencial. Anonimamente, no lugar de lamentar-se por portar tal vazio, anônimo esvaziou-se do vácuo, expulsando existência e comodidade para todas as direções. A felicidade só passa a "ser" fora de anônimo. Dentro ela é nada. A felicidade de anônimo, é a felicidade alheia, somada, dividida e multiplicada. Por seu vazio, jamais, coisa nenhuma esteve em anônimo. Mas anônimo sempre esteve em tudo, anonimamente.
Devido aos direitos daquele que depõe, não será dito nome próprio algum que faça menção, direta ou indireta, ao mesmo. Dessa forma, chama-lo-ei de Deus.

terça-feira, 9 de março de 2010

A morena.














De carne é feito um eu
de abraços é feito um nós
então, morena
não perde tempo

O agora é demasiado instantâneo
se cria sem barulho
me beija no silêncio do agora
e afasta teu orgulho

Na montanha
herdei um chalé
guarda tua lucidez
pra provar do meu café

Então, morena
é morena desde quando?
mal nasceu e saiu andando, toda morena
a hora de te ver
é a hora que sou

Esquece você de Vênus
esquece eu de Marte
recriando a noite num abraço
sejamos juntos, um ser a parte

E então amanhã,
acordando no emaranhado dos lençóis
teremos um pouco de si
e um bocado de nós.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Besteira minha.
















Deus está na minha gaveta
a cor das minhas meias
iluminadas pela luz do dia
Deus vem de fora quando se procura dentro

Deus está na geladeira
quantas vezes abro
só pra pensar besteira

Deus é um chocólotra
feito de chocolate
quanto mais se lambuza
nascem bombons, trufas
se dissolve em nós

Deus é sem versos
verso é chave de gaveta
e é lá na minha gaveta
onde Deus está.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O ponto.




















Eram infinitas portas
uma para cada modo de pensar
cada porta, uma lasca de madeira
infinitas lascas
montavam uma porta inteira

Uma porta espalhada
em mil portas abertas
todos se encontram antes do tempo curvar
é quando a porta despedaçada
começa a se montar

Palavras vencem o prazo
já não vale falar ou entender
coloque seu pedaço da porta
e deixe a dúvida para os que vão nascer

No ápice da curva
onde os olhos não piscam
onde não há espaço
para meio suspiro, sequer
não há ar nem água
somos um ponto

Minha verdadeira natureza
revelara-se intensa nesse momento
ser Deus, é ser um ponto
na curva espacial do tempo.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A verbificação.




















Multiplicaram os primeiros
fiéis à seu espírito
e de boca em boca, vivendo
já eram todos iguais

Se genuíno, ao menos fosse
mesmo que deveras falado
já não nos serviriam as palavras
pois sentiriamo-nos afagados

As bocas
todas elas o conjugam
é um belo verbo, realmente
e a verbificação o fez banal

Eu amo
Tu amas
Ele ama
e cada explicação
o torna sacal

Parei ontem
de conjugar o amor
voltara ele, a ser nome?

Porém ontem
me conjugara, o amor
e foi assim, em verbo
que abracei o mundo.