quinta-feira, 9 de julho de 2009

A não-existência.



















Todos os dias
se tornam um
mas eu vivo todos
e sou um

Cheguei a pensar que tem um espelho
no meio desse lugar
bem no meio
e tanto faz, um lado
ou outro
se espelha no espelho
e me deixa solto
solto, dentro do espelho
espelhado, perdido
no começo do semêio


Sem frente, sem passado
esse é o futuro do espelho, do espelhado
mostra agora, o que vejo no centro
lá, no guarda-roupa
tem uma cadeira onde sento
na minha cama
uns travesseiros, uma água
só não tem
mão que afaga

e no começo do quarto
é o fim da sala
disso, estou farto
fico na soleira do quarto
na quase-sala
com água
sapatos e mala

Fico na saída do quarto
sem água, espelho
sem fala.

Imortal.




















As palavras caem
de nossas bocas
elas saem
sem destino, sem lugar
e ficam planando no alto
esperando que alguém as capture, ao respirar

Mas são só palavras
sem verdade, sem destino
só foram ditas, para servir de ensino
e quem tem caverna, dorme na pedra
quem tem pedra, constroi castelo
lá em cima estende uma bandeira
de verde, de preto, de amarelo
e no caminhar com o peito trincado
escorre a essência do ser animado
e congela o sangue, do cego criado

Existem escolhas
existem salas, quartos
existem folhas, que caem das árvores
em cima do gramado.

Existe um contador, que apita
em cada segundo, um baque fatal
o impacto me leva ao início
e a cada instante, sou imortal.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

O desperto.
















Certo dia, dois amigos conversavam sobre vários assuntos. Um deles, era mais velho, bem mais velho, tinha seus setenta anos. E o outro, seus vinte. Até que o mais velho lhe perguntou:
- onde estamos, amigo?
E este respondeu:
- ora, estamos aqui!
Então, o mais velho prosseguiu:
- me acompanhe, e vou lhe mostrar onde realmente estamos.
O outro, sem entender muito, o acompanhou. E após andar um pouco, o velho lhe fez a mesma pergunta:
- onde nós estamos, amigo?
E o mesmo lhe respondeu:
- ora, estamos aqui!
- É o que você percebe? - perguntou o mais velho.
- Sim, pois é o óbvio!
- Certo. Então diga para onde vamos - falou o mais velho.
- Hum. Vamos para lá - e apontou para onde tinham partido pela primeira vez. E sem dizer nada, voltaram o caminho. Após chegar no lugar desejado, o amigo mais velho lhe perguntou serenamente:
- Onde estamos?
E o jovem, respondeu sem pestanejar:
- Estamos aqui, amigo.
E o outro prosseguiu:
- Já percebeu, que estamos sempre indo "lá" para estar "aqui"? O "lá" existe apenas em sua mente, pois o que existe mesmo, é o "aqui", o "agora". Você sempre quer alcançar "lá", mas nunca o encosta, pois esteve "aqui" o tempo todo. O "lá" sempre será o futuro, ou o passado, pois, de fato, ou sempre vamos querer estar "lá", ou sempre partiremos de "lá". Só que, quando nos perguntamos onde estamos, veremos que sempre, sempre estaremos aqui. Por isso, nunca ande em vão. Ao invés de "estar indo para lá", perceba que, está "aqui", independente de onde esteja.
Após ouvir essas palavras, o jovem - subtamente - despertou, e percebeu que a maior caminhada que se pode fazer, não é a de "aqui pra lá", nem a de "lá pra cá", mas sim, a de todo instante, não importando o quanto se anda.
Depois desse dia, o jovem deixou de "ir" à vários lugares, pois percebeu que sempre esteve neles.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

O manifesto.















Minha vida é um pote
que sempre vazio, convida o mundo
Minha vida é um corte
que saboreia o corpo e a alma; profundo
Minha vida é um segredo
um lápis
uma cor
Minha vida é um sonho, um suspiro
mais de um sabor
Hoje, amarga
Amanhã, salgada
Vezes, doce
Minha vida é um ponto
no alto, no cume, no ápice
É meu alcance
um asfalto, um fruto, um cálice
É a volta pra casa
Um manifesto, uma alteração
Um momento sim, e outro não
Minha vida é hoje
É uma confissão, progressão, intuição
É um lado, um teto
Um caco, uma quebra
Um lapso, um "agora"
Um movimento
um pensamento
Minha vida move, comove e remove
Estica, ataca, atinge
Eterno esboço
do morno cotidiano
sempre desenhando meu "existir"
ao passo que vou esquentando
Até dissolver em tudo e sumir
Minha vida, meu contorno
minha saga, meu ouro
Minha vida, meu retorno.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Desnexo.




















A minha janela fica ao lado da porta
Visitas sofríveis dispenso aos flancos
Do lado de fora, estou me chamando
Atendo? Ou fico aqui, sonhando?
Questiono o impasse de pensar ou viver
Posiciono a mente no estar; no ser
E trafego por sobre minúcias
Minúcias desfoques de nexos sentidos
Que vagam no eterno
E encontram abrigo no vazio
De um cômodo sem portas ou janelas.

Gabriel Pereira e Anderson Ferreira.

Anderson Ferreira posta em: http://esbocofinal.blogspot.com

domingo, 7 de junho de 2009

Meu caminho.
















Nos meus olhos - meu mundo
em minhas mãos, um relógio
nos ponteiros, uma chance
nas chances, mais erros

No meu peito - bem fundo
um som, quase mudo
na minha boca, sem voz
um pacto, um laço - milhões de nós

Na minha cama
meu sono, minha alma, meus lençóis
na lama
a chuva, a terra, e alguns de nós

Dentro da cabeça
o volante, o timão, a supervisão
e o ar que entra
inunda meus pulmões
saio na rua, cato laranjas, goiabas e maçãs

Na importância - a verdade
sigo em frente, sem trazer o passado
sigo em fente, olhando meu lado
no tempo, a ausência da idade
tropeço nos problemas, ficando cansado
na estrada, um caminho
no caminho, um coração
no coração, um infinito sem explicação

Os meses passam
com as horas correndo pelos dias
e toda noite
os sonhos, são armadilhas

Mas sigo sempre
meu lado, meu caminho
meu coração
minha mente.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

A mudança.




















Mudança é o que impera. Só há mudanças. Determinado processo iniciado hoje, de certa forma, nunca terminará, pois tudo o que se seguir após seu início ainda será o processo, desde que tenha relações com a época em que foi iniciado. Ou seja, todo e qualquer processo estará sempre sujeito a mudanças. Dessa forma, é possível dizer que não existem fins, mas sim e sempre, novos começos, os quais se sobrepoem uns sobre os outros, anulando assim, de certa forma, o que havia começado ontem.
Visto que a vida segue, da mesma forma acontece com tudo o que existe, ou seja, as coisas seguem. É fácil notar esse fato analisando a lagarta, que lenta e curiosa, com suas cores vivas, jamais deixa de ser lagarta pois em um momento caminha, no outro ela descansa dentro do
casulo, e após adquirir vontades indomáveis, a lagarta sai voando, mais colorida e deslumbrante. Não notei nesses processos o fim de nada, notei apenas começos sobrepostos. Notei o começo da lagarta, o começo da pupa, o começo da borboleta, e depois, o começo de um mundo sem a borboleta.
Assim, o êxito é na verdade, não a conquista de algo específico, mas sim, o êxito trata-se da perseverança, a vontade de ser sempre mais do que se é no momento atual. Dessa forma, o
êxito é a condição de estar sempre em mudança, de acordo com as situações impostas. Por isso,
não se deve ser forte, pois a força sempre será relativa, existirão coisas mais fortes.
Deve-se sim, ser flexível, pois dobraremos de acordo com as mudanças, e após, retornaremos ao
equilíbrio, estando mais fortes, mais resistentes, mais calejados.
Jamais teremos tudo, pois ao buscar o que não temos, podemos perder o que temos. Assistimos
a isso quando vemos os aviões decolarem, conquistando o céu, e perdendo o chão. Sempre seremos pobres, pois por mais que tenhamos, sempre estaremos sujeitos a perder. Os capitalistas ricos, tem o dinheiro como riqueza, os colecionadores tem como riqueza, suas coleções, cada um tem algo de importante, sendo que uns visam mais determinadas coisas, mas cada riqueza existe em porções diferentes, em diferentes seres, que sofreram diferentes mudanças, ao terem diferentes êxitos. A verdadeira riqueza, então, consiste não no que temos, nem no que queremos ter, mas sim, no valor que damos aos objetos, pessoas, coleções, dinheiro, palavras, que temos e que não temos. Sempre seremos pobres de alguma coisa, pois um capitalista pode não ter amor, um materialista pode não ter amigos, os colecionadores podem não ter outra coisa, se não, suas coleções. Visar sempre não só o que nos faz rico, mas também o que nos torna pobres, é a humildade. É saber o que foi, o que é, o que pode ser, e o que sempre será importante, sempre vendo no que somos ricos, e no que somos pobres.
O tempo sempre morre e nasce, instantâneamente. E dessa forma, se estende infinitamente, sofrendo a mudança cruel de nunca ser o mesmo que era. Na verdade, nem sei se o tempo pode ser algo, acho que o tempo é a flexibilidade onipotente e onipresente, que faz, ou melhor, que nos
força, a ser tão flexível quanto ele. O tempo não tem coração, pois este, é o sinal fixo de inflexibilidade. Quem tem coração, carrega para sempre os tempos que já morreram.
Então, no processo de sempre seguir em frente, de sempre mudar ou ser forçado a mudar, de sempre ter que esquecer coisas, nesse processo buscamos o êxito no equilíbrio entre saber esquecer o que deve ser esquecido, e levar por dentro, o que deve sempre ser vivido, recordado. Ao ir sempre em frente, substituimos nosso coração por pedaços de pedra, e assim temos um equilíbrio entre o valor que possuímos, e o valor que atribuimos. Cada pedra, é o valor que não recebemos. E o que restar do coração, são os que amamos e que, reciprocamente, nos amaram. Levando nossos corações, e deixando os deles.